domingo, 4 de março de 2012

O livro e a bola



A mãe de Netinho passava o dia correndo atrás do menino, que por sua vez passava o dia correndo atrás da bola. Gato e rato! Mas Ana Silvestre Coelho era descendente de índios, osso duro de roer, e não entregava os pontos facilmente. Incontáveis vezes buscou o filho nos campinhos maltratados de Caxias, no Maranhão, e o obrigou a estudar, mergulhar nos livros. Zelosa, também temia que o pimpolho se machucasse. Em casa, emburrado, lia de tudo e aos poucos foi tomando gosto, tomando gosto até tornar-se Coelho Neto, presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1926, e um dos mais importantes escritores brasileiros.

- Talvez da infância tenha nascido o sentimento do artista, que depois escreveria “Ser mãe é andar chorando num sorriso! Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! Ser mãe é padecer num paraíso”, um dos mais belos poemas de nossa literatura – divertiu-se o intelectual Arnaldo Niskier, colaborador de luxo da equipe A Pelada Como Ela É e presente nas colunas “Gol de Letras”, em 2 de julho, e “Neymarchado de Assis”, em 29 de outubro.

Realmente não foi nada fácil para Dona Ana Silvestre domar o espírito irrequieto de Netinho. Os educadores também sentiram na pele. Em São Paulo, Henrique Maximiano Coelho Neto participou de movimentos abolicionistas e republicanos, entrou em atrito com professores e não concluiu o curso jurídico. Talvez efeito colateral da abstinência ao futebol, problema sanado com a chegada ao Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte dos seus 70 anos e tornou-se grande amigo dos escritores Olavo Bilac e Guimarães Passos.

- No Rio, passou a frequentar o Fluminense e tornou-se um apaixonado torcedor. Chegou a compor um hino para o clube, mas não colou. Perderia para Lamartine Babo com “sou tricolor de coração...” – contou Niskier.

O escritor casou-se com Maria Gabriela Brandão e teve 14 filhos. Os amigos diziam, brincando, que o autor de “O Paraíso” e “Tormenta” gostava tanto de futebol que pretendia montar um time só com a crias. Não era bem assim. O processo industrial corria nas veias em todas as áreas. Coelho Neto, escritor mais lido no país durante muitos anos, também produzia livros sem parar e alguns críticos o chamavam de “fabricante de romances”. Quando não estava escrevendo arrastava a família para o clube, afinal obrigou todos a torcerem pelo tricolor! Seguiu os passos da querida mãe e foi durão com a molecada. Do seu jeito!

- Mas apesar de todos gostarem de futebol, um deles se destacava – revelou Niskier, torcedor do América.

O menino era João Coelho Neto, o Preguinho, destaque absoluto nos rachas do Fluminense. O pai se enxergou ali e, sendo assim, caprichou na vista grossa. Considerado o “príncipe dos poetas brasileiros”, adorava aplaudir as jogadas do filho e volta e meia invadia o campo para agredir os árbitros com sua bengala. O príncipe virava sapo! Mas Preguinho realmente enchia os olhos e talvez tenha sido o mais completo atleta tricolor de todos os tempos. Praticou, além do futebol, nove modalidades: natação, vôlei, basquete, remo, pólo aquático, hóquei, atletismo, saltos ornamentais e tênis de mesa, acumulando 55 títulos e 387 medalhas. O amor pelo Fluminense herdado do pai era tanto que mesmo após a profissionalização do futebol, em 1933, negou-se a receber dinheiro do clube. Alma de peladeiro!!!

- Craque, foi convocado e marcou o primeiro gol do Brasil numa Copa do Mundo, contra a Iugoslávia, em 1930 – recordou Niskier, o acadêmico bom de bola.

Vitoriosos em suas áreas, Coelho Neto enterrou a frustração de não ter sido jogador graças ao talento de Preguinho. Da beira do campo, o intelectual esgoelava-se e virava bicho quando alguém derrubava seu menino. Num Fla x Flu invadiu o gramado e só não acertou mais bengaladas no árbitro porque a turma do deixa disso entrou em ação. Mas ele tinha crédito, afinal sua “bengala” também lutou pela extinção da escravatura e o desmatamento da Amazônia. Preguinho conhecia o gênio do pai e para evitar maiores constrangimentos resolvia em campo. Foi artilheiro do Campeonato Carioca em 1930 e 1932 e, ao todo, emplacou 184 gols com o manto tricolor. Ao receber o título de atleta benemérito do Fluminense deixou aflorar sua alma de poeta: “Eu nem sabia falar direito e o Flu já estava em minha alma, meu coração e meu corpo”. Poesia e futebol. Livro e bola. Pai e filho. Coelho Neto e Preguinho.

Essa coluna foi em homenagem aos tricolores campeões da Taça Guanabara. Um agradecimento especial para o gênio das ilustrações, Cláudio Duarte!

(Por Sergio Pugliese em "A pelada como ela é")

3 comentários:

PCFilho disse...

Natália, acho que o autor cometeu um equívoco na frase "sua “bengala” também lutou contra a extinção da escravatura e o desmatamento da Amazônia".

Afinal, Coelho Netto lutou pela extinção da escravatura, não contra ela.

Exceto por esse erro, o texto está muito bom. :)

Saudações Tricolores,
PC

Natália tricolor disse...

Bem observado, PC.

O equívoco foi alterado no texto original e será alterado aqui também.

Saudações Tricolores

Gabriel Casaqui disse...

Caros tricolores,

Nosso blog promove a Seção Análise de Elenco, no qual analisamos as 20 equipes do Brasileirão.

Desta vez, o time alvo foi o Fluminense.

Convidamos todos a acompanhar nossa análise e registrarem sua opinião, que é muito importante para nós.

Abraços.
Gabriel Casaqui
http://obotecoesportivo.blogspot.com.br/2012/03/analise-de-elenco-fluminense.html
@botecoesportivo