Eu vi tudo, Prego. Eu vi tudo.
Dez de outubro de 1979, Rua das Laranjeiras, 382, Rio de Janeiro. Dona Linda acorda no meio da noite e vê que seu marido não está na cama. Levanta-se e o procura pelo modesto apartamento. Ele está de pé, observando um quadro emoldurado em madeira e vidro, pendurado na parede da sala, com a inscrição: “João Coelho Netto, o Preguinho, Grande Benemérito Atleta. Fluminense Football Club, 22 de Janeiro de 1952″. Na ocasião da entrega do diploma, Preguinho declarara: “eu mal sabia falar e o Fluminense já estava em minha alma, em meu coração e meu corpo”. Dona Linda vê o marido de 74 anos, alto e ainda forte, enxugar uma lágrima que escapa, com as costas da mão direita. Comovida, aproxima-se e o conduz gentilmente de volta à cama. Seria a última vez que Preguinho contemplaria o certificado emitido pelo clube que tanto amava, por quem tantas glórias conquistara e do qual era uma lenda viva.
Sessenta e sete anos antes de derramar sua derradeira lágrima, João, aos 7 anos, embolava-se nas pequenas ondas da Praia de Botafogo. Emmanuel, o Mano, seu irmão mais velho, então com 14, ensinava-o a nadar. Mano acompanhava de perto, protetor, mas procurava não interferir e deixava o garoto se virar sozinho. O pequeno era valente, afundava e demorava-se, mas voltava à tona e enfrentava as ondas. Mano exclamava: você mais parece um prego, João!
Prego. A menção a esse apelido, que acompanhou João por toda a vida e popularizou-se no diminutivo, faz qualquer tricolor de boa cepa transpassar-se de honra e crispar-se de orgulho. Preguinho. O super-atleta do Fluminense, o atleta mais completo do Brasil.
O pai de ambos, Henrique Coelho Netto, escritor e poeta famoso, fundador da ABL, autor de 130 livros e, acreditem, exímio capoeirista, mudara-se para a frente do FFC. O intuito era criar os 7 filhos dentro do lema
“mens sana in corpore sano”. Para o desenvolvimento intelectual Coelho Netto implantou no clube as “vesperais de arte”, com recitais de poesia, sessões de literatura, ópera, teatro e dança, tranformando-o em concorrido centro cultural e social da Capital da República. Criou os filhos onde, em 1914, nasceria a Seleção Brasileira, e em 1918 seria construído o primeiro estádio do Brasil. A história da família Coelho Netto entrelaça-se e confunde-se com a do Fluminense.
Em função da educação imposta pelo pai, Preguinho transformou-se em algo parecido com um super-herói da vida real. Praticava e competia em nove, sim eu disse no-ve, modalidades esportivas: natação, remo, futebol, vôlei, basquete, saltos ornamentais, hoquei sobre patins, polo aquático e atletismo (salto em distância e altura, corridas curtas e longas). Ganhou nada menos que 387 medalhas, a maioria de ouro, e 55 títulos. Foi titular e artilheiro, por anos a fio, do Flu e da Seleção Brasileira, da qual foi capitão e autor do primeiro gol em Copas do Mundo, em 1930, no Uruguai. Uma de suas mais celebradas façanhas aconteceu em 1925, quando ganhou uma competição de natação na Praia de Botafogo, donde saiu, de roupão, para o clube. Lá, mudou de roupa a tempo de integrar o time de futebol e ser campeão do Torneio Inicio. Atuava como amador, e, mesmo após o advento do profissionalismo, jamais aceitou receber qualquer pagamento para defender o Tricolor.
Preguinho, entretanto, não se vangloriava de suas façanhas e conquistas. O motivo para tal modéstia era doloroso: ele carregava no peito a magoa da perda de seu irmão mais velho, e por isso não se permitia certas atitudes. Tenho, cá pra mim, que o furor esportivo desmensurado, quase insano e a energia sobre-humana, eram consequência direta dessa perda. Uma homenagem ao tutor e ídolo ausente. Uma necessidade de realizar, pelos dois, tudo que o irmão não pudera em função da partida prematura e inesperada.
Eis a bela e trágica história de Mano – Emmanuel Coelho Netto.
Mano, jogador de raça invulgar, era titular do Flu, tendo conquistado o tricampeonato estadual, de 1917 a 1919, integrando a que é considerada a melhor equipe da era do amadorismo . Em 1922, aos 24 anos, disputava peleja contra o São Cristóvão, no Laranjal, quando recebeu uma entrada violenta no abdome. É atendido com uma massagem, pelo treinador, que o aconselha a não retornar ao jogo. Acontece que naquela época ainda não havia substituições e Mano recusou-se a desfalcar o Tricolor. Retornou, com hemorragia interna, à ponta direita e jogou em condições precárias até o apito final, sob os olhares apreensivos de todos.
Eis a verdade, amigos: nosso Mano sangrou até a eternidade em honra do Fluminense Football Club. Saiu das Laranjeiras para o leito de casa onde agonizou por nove dias e nove noites, antes de nos deixar. Uma sede insaciável o acometia, mas toda água sorvida vasava-lhe pelas artérias, qual vaso furado. Alternava momentos de sofrimento e serenidade, e somente chorou quando seu pai anunciou-lhe a chegada do sacerdote para ministrar-lhe a extrema unção. A possibilidade de perecer não lhe passava pela cabeça, pois, assim como Preguinho, não pensava em derrota, apenas no embate, ao qual entregavam-se por inteiro. Nas palavras de seu pai - “Voltei-me. Ele inclinara a cabeça e então vi as lágrimas da sua juventude, os seus sonhos desfolhando-se às gotas, todos os seus amores despedindo-se.”
Em primeiro de outubro daquele ano, o Berço da Seleção fervilhava, em dois cenários contrastantes. De um lado, uma multidão de 25 mil pessoas, lotação máxima do maior estádio do país, chegava excitada. Era o dia do esperado embate entre Brasil, atuando de tarjas negras, e Uruguai, pelo Sul-americano do Centenário da Independência, sediado nas Laranjeiras. De outro, um cortejo fúnebre de duzentos carros, com representações de diversos clubes, acompanhava o corpo do jovem guerreiro rumo ao cemitério. Dois anos após o episódio, Coelho Netto escreveu “Mano, o livro da saudade”, relato sobre a agonia do filho.
Ao adentrar os Céus, Mano foi recebido por doze legiões de anjos perfilados, em respeitoso silêncio. À sua passagem, oravam: Pai, recebei este filho em Vossa casa e concedei-nos sua coragem e abnegação, para que bem possamos combater o mal.
Cinquenta e sete anos depois, os mesmos anjos receberam Preguinho, com a mesma reverência. À sua passagem, oravam: Pai, recebei este filho em Vossa casa e concedei-nos sua força e inquebrantável determinação, para que bem possamos combater o mal.
O reencontro caloroso dos irmãos inundou de paz o coração dos anjos, que sorriram. Pela primeira vez, Preguinho permitiu-se vangloriar de seus feitos imortais. Estava ansioso por relatar a Mano tudo que realizara, após sua partida, na defesa das três cores que traduzem tradição. Mas foi interrompido pelo mais velho, com um abraço, um largo sorriso e as seguintes palavras: Eu vi tudo, Prego. Eu vi tudo.
(Por Edu Rocha em Fluminenseetc )
terça-feira, 13 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
O Fla-Flu de 1919
"1919. Estamos chegando à rua Paissandu. Tudo no campo do Flamengo tem a tensão da vitória. A bilheteria fecha. Não cabe mais um alfinete. Antes do apito inicial, alguém quebra a cabeça de alguém com uma garrafada. As mulheres abanavam-se (até hoje, não entendo a burrice feminina de não usar leque nesta Sibéria de fogo). Os dois times estão em campo, formados. O juiz apita. Começou.
Na tribuna de honra estava o Presidente da República, Epitácio Pessoa. Sim, Epitácio antes das cartas falsas, de 22, dos 18 do Forte. Fisicamente pequenino, ele andava tenso, ereto, de fronte alçada, como se estivesse ouvindo um permanente e fantástico Hino Nacional.
Começou o Fluminense x Flamengo de 1919. Antes, porém preciso falar de outras figuras, além de Epitácio. Por exemplo: - o juiz. Poucos, raríssimos sobreviveram àquele jogo. Morreram Epitácio, quase todos os jogadores, as duas torcidas, os bandeirinhas. Os bandeirinhas, de pingar sobre o seu nome e a sua arbitragem uma dúvida, uma suspeita.
Mas o povo precisa chamar um juiz, qualquer juiz, de ladrão. Reside aí talvez a cruel, a fatal volúpia do futebol. O torcedor morreria de pena, de frustração, se não xingasse de gatuno o homem do apito. Se ainda hoje é assim, antes era pior. Em nossa época, o árbitro ganha: todas as suas virtudes e todas os seus defeitos são remunerados. Naquele tempo, porém, o juiz não recebia um único e escasso tostão. E, se cometia um erro, e mesmo sem cometer erro nenhum, logo explodia o clamor de vendido, comprado, ladrão.
E, aos oito minutos de jogo, pênalti contra o Fluminense. Ora, era uma partida que trazia, em seu ventre, o campeão. Como em 50 para o Brasil, o empate, o simples empate, daria o título ao Tricolor. Estava lá, na tribuna de honra, o Presidente da República. Até Epitácio se deixara tocar pela magia da batalha. Deve ter perguntado, baixo, ao ajudante-de-ordens: - "Pênalti? Que é pênalti?"
Eis a opção do jogador que cobra o pênalti: - ou bomba ou bola colocada. O juiz apita. Até o Presidente da República está ferido de angústia. Ah, Epitácio vai pouco a futebol e é um desses espectadores capazes de perguntar: - "Quem é a bola?" Perturba-o, como um mistério, a mise-en-scène do pênalti. A cobrança de uma penalidade máxima é o momento religioso da partida.
Ora, Marcos sabe que ele é tudo. Sim, é o deus do momento. Ele vai salvar ou perder o tricampeonato. Concentração. Serenidade intensa, calma apaixonada. Nunca sua visão foi tão límpida e tão exata. Tudo vai depender de um reflexo fulminante. Ademar Martins caminha para a bola. Jamais alguém foi tão olhado como o goleiro na hora do tiro de misericórdia. Não existe mais ninguém no estádio. Nem o artilheiro da falta. Nem o juiz, que a marcou. O próprio Presidente da República tornou-se, de repente, secundário, nulo. É o Chefe da Nação, mas o pênalti fez o estadista um pobre diabo.
A própria paisagem cessa de existir. Foi disparada a bola. E Marcos defende, como se diz hoje, parcialmente. Mas "defender parcialmente" um pênalti é um milagre. Mas antes do tiro e da defesa, Marcos pensa: - "Se eu defender tenho que mandar a bola para os lados". Ademar Martins olha, apavorado. Já não entendera a marcação do pênalti e muito menos a defesa de Marcos. A um milímetro da vitória, subitamente a perdia. Na tribuna de honra, o olhar de D. Guilhermina Guinle tem uma doçura mais viva.
Mas continua o perigo. Nova bomba, à queima-roupa. Reflexo prodigioso de Marcos. O Presidente da República tem um espanto de menino. Não entende que o mesmo pênalti seja desdobrado em três. Marcos defende a primeira vez, a segunda vez. E vem uma terceira bomba, mais vingativa, mais cruel do que as outras. Desta vez, ele se agarra e se abraça à bola como a um fado. Três defesas rigorosamente impossíveis. E ninguém percebeu, porque ninguém enxerga o óbvio, que estava, ali, o Sobrenatural de Almeida.
Tricolores se abraçavam e se beijavam. Moças desmaiavam. Defendido o pênalti, tudo voltou à sua hierarquia. O Presidente da República podia ser novamente Presidente da República. E o ajudante-de-ordens, distraído por um momento da adulação, da subserviência, voltara a lamber com a vista S. Exa.. E o azul da tarde escorreu sobre o povo. Debaixo dos três paus, estava Marcos ainda crispado. Vivera um instante de onipotência. A fitinha roxa parecia vermelha de sangue rútilo.
Ah, o brasileiro de 1919 tinha uma estrutura muito mais doce. E era outro o Brasil. Um turista que por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: - "Isso é a pátria do fraque". Mas eis o que importa destacar: - naquela época, o Presidente da República podia ir a um campo de futebol, ver um Fluminense x Flamengo.
Aí está o feio e negro abismo cavado entre as duas épocas: - em 1919, quando Epitácio Pessoa apareceu na tribuna de honra, a multidão bateu palmas, de pé: hoje, o Poder não pode entrar no ex-Maracanã, agora Mário Filho. No maior estádio do mundo, vaia-se até minuto de silêncio. E assim, vaiando qualquer um, o homem de arquibancada tem uma sensação de onipotência.
E, de repente, Bacchi toma a bola. Dribla um, dribla outro. É uma penetração fulminante. Não era jogador de bomba. Mas sabia empurrar a bola no canto certo, desintegrando o goleiro. Ele sentiu, farejou, apalpou o gol, antes de fazê-lo. E, então, ergueu-se do povo o uivo ou, por outra, o mugido. Foi um mugido. Gol, gol. Do Fluminense.
Há, entre cada um de nós e esse primeiro gol de Bacchi, meio século. Cinqüenta anos. Aquela multidão já morreu, quase toda já morreu. Uns poucos sobrevivem. Eu desejaria perguntar a um dos sobreviventes se, no gol de Bacchi, o canhão do Tota Rodrigues soltou um dos seus estrondos medonhos. O estádio tremeu. As mulheres desfaleciam. E não sei qual era mais formidável, se a euforia Tricolor, se o silêncio Rubro-Negro."
(Nelson Rodrigues)
Na tribuna de honra estava o Presidente da República, Epitácio Pessoa. Sim, Epitácio antes das cartas falsas, de 22, dos 18 do Forte. Fisicamente pequenino, ele andava tenso, ereto, de fronte alçada, como se estivesse ouvindo um permanente e fantástico Hino Nacional.
Começou o Fluminense x Flamengo de 1919. Antes, porém preciso falar de outras figuras, além de Epitácio. Por exemplo: - o juiz. Poucos, raríssimos sobreviveram àquele jogo. Morreram Epitácio, quase todos os jogadores, as duas torcidas, os bandeirinhas. Os bandeirinhas, de pingar sobre o seu nome e a sua arbitragem uma dúvida, uma suspeita.
Mas o povo precisa chamar um juiz, qualquer juiz, de ladrão. Reside aí talvez a cruel, a fatal volúpia do futebol. O torcedor morreria de pena, de frustração, se não xingasse de gatuno o homem do apito. Se ainda hoje é assim, antes era pior. Em nossa época, o árbitro ganha: todas as suas virtudes e todas os seus defeitos são remunerados. Naquele tempo, porém, o juiz não recebia um único e escasso tostão. E, se cometia um erro, e mesmo sem cometer erro nenhum, logo explodia o clamor de vendido, comprado, ladrão.
E, aos oito minutos de jogo, pênalti contra o Fluminense. Ora, era uma partida que trazia, em seu ventre, o campeão. Como em 50 para o Brasil, o empate, o simples empate, daria o título ao Tricolor. Estava lá, na tribuna de honra, o Presidente da República. Até Epitácio se deixara tocar pela magia da batalha. Deve ter perguntado, baixo, ao ajudante-de-ordens: - "Pênalti? Que é pênalti?"
Eis a opção do jogador que cobra o pênalti: - ou bomba ou bola colocada. O juiz apita. Até o Presidente da República está ferido de angústia. Ah, Epitácio vai pouco a futebol e é um desses espectadores capazes de perguntar: - "Quem é a bola?" Perturba-o, como um mistério, a mise-en-scène do pênalti. A cobrança de uma penalidade máxima é o momento religioso da partida.
Ora, Marcos sabe que ele é tudo. Sim, é o deus do momento. Ele vai salvar ou perder o tricampeonato. Concentração. Serenidade intensa, calma apaixonada. Nunca sua visão foi tão límpida e tão exata. Tudo vai depender de um reflexo fulminante. Ademar Martins caminha para a bola. Jamais alguém foi tão olhado como o goleiro na hora do tiro de misericórdia. Não existe mais ninguém no estádio. Nem o artilheiro da falta. Nem o juiz, que a marcou. O próprio Presidente da República tornou-se, de repente, secundário, nulo. É o Chefe da Nação, mas o pênalti fez o estadista um pobre diabo.
A própria paisagem cessa de existir. Foi disparada a bola. E Marcos defende, como se diz hoje, parcialmente. Mas "defender parcialmente" um pênalti é um milagre. Mas antes do tiro e da defesa, Marcos pensa: - "Se eu defender tenho que mandar a bola para os lados". Ademar Martins olha, apavorado. Já não entendera a marcação do pênalti e muito menos a defesa de Marcos. A um milímetro da vitória, subitamente a perdia. Na tribuna de honra, o olhar de D. Guilhermina Guinle tem uma doçura mais viva.
Mas continua o perigo. Nova bomba, à queima-roupa. Reflexo prodigioso de Marcos. O Presidente da República tem um espanto de menino. Não entende que o mesmo pênalti seja desdobrado em três. Marcos defende a primeira vez, a segunda vez. E vem uma terceira bomba, mais vingativa, mais cruel do que as outras. Desta vez, ele se agarra e se abraça à bola como a um fado. Três defesas rigorosamente impossíveis. E ninguém percebeu, porque ninguém enxerga o óbvio, que estava, ali, o Sobrenatural de Almeida.
Tricolores se abraçavam e se beijavam. Moças desmaiavam. Defendido o pênalti, tudo voltou à sua hierarquia. O Presidente da República podia ser novamente Presidente da República. E o ajudante-de-ordens, distraído por um momento da adulação, da subserviência, voltara a lamber com a vista S. Exa.. E o azul da tarde escorreu sobre o povo. Debaixo dos três paus, estava Marcos ainda crispado. Vivera um instante de onipotência. A fitinha roxa parecia vermelha de sangue rútilo.
Ah, o brasileiro de 1919 tinha uma estrutura muito mais doce. E era outro o Brasil. Um turista que por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: - "Isso é a pátria do fraque". Mas eis o que importa destacar: - naquela época, o Presidente da República podia ir a um campo de futebol, ver um Fluminense x Flamengo.
Aí está o feio e negro abismo cavado entre as duas épocas: - em 1919, quando Epitácio Pessoa apareceu na tribuna de honra, a multidão bateu palmas, de pé: hoje, o Poder não pode entrar no ex-Maracanã, agora Mário Filho. No maior estádio do mundo, vaia-se até minuto de silêncio. E assim, vaiando qualquer um, o homem de arquibancada tem uma sensação de onipotência.
E, de repente, Bacchi toma a bola. Dribla um, dribla outro. É uma penetração fulminante. Não era jogador de bomba. Mas sabia empurrar a bola no canto certo, desintegrando o goleiro. Ele sentiu, farejou, apalpou o gol, antes de fazê-lo. E, então, ergueu-se do povo o uivo ou, por outra, o mugido. Foi um mugido. Gol, gol. Do Fluminense.
Há, entre cada um de nós e esse primeiro gol de Bacchi, meio século. Cinqüenta anos. Aquela multidão já morreu, quase toda já morreu. Uns poucos sobrevivem. Eu desejaria perguntar a um dos sobreviventes se, no gol de Bacchi, o canhão do Tota Rodrigues soltou um dos seus estrondos medonhos. O estádio tremeu. As mulheres desfaleciam. E não sei qual era mais formidável, se a euforia Tricolor, se o silêncio Rubro-Negro."
(Nelson Rodrigues)
sábado, 3 de setembro de 2011
Pinheiro Eterno
"Castilho, Píndaro e Pinheiro... Os tricolores não se esquecem, mesmo os que não viveram aquela época. Com este trio de ferro defendendo sua cidadela, o Fluminense tinha o time mais temido do Brasil. Com eles, ganhamos o Campeonato Carioca de 1951 e o Mundial de 1952. Foram três verdadeiras lendas do futebol brasileiro. Três nomes gravados eternamente nas antologias do esporte. Três nomes que, até hoje, parecem formar um só.
Já após a saída de Píndaro, Castilho e Pinheiro continuaram levantando taças pelo Fluminense: foram campeões cariocas de 1959 e campeões do Torneio Rio-São Paulo em 1957 e 1960. Em 1954, ambos foram titulares da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, e só saíram derrotados pela lendária Hungria de Puskas e Kocsis. Por uma injustiça do destino, Pinheiro não foi convocado para os Mundiais de 1958 e 1962, e assim deixou de conquistar o único título que faltou em seu currículo. Azar da Copa do Mundo.
Ontem, infelizmente, faleceu Pinheiro. E adianto que bandeiras hasteadas a meio pau e minutos de silêncio não serão homenagens suficientes. Amigos, o Fluminense perdeu ontem um mito, um símbolo de sua história, um ícone de suas glórias, uma glória em si. Pinheiro é o segundo atleta com mais atuações com a camisa tricolor (600 partidas), perdendo nesse quesito apenas para seu companheiro Castilho.
Na ocasião de seu aniversário de 79 anos, em janeiro último, escrevi as seguintes linhas:
"Amigos, imaginem um zagueiro com 600 atuações por seu clube. Imaginem um zagueiro que, durante doze anos, foi titular absoluto deste clube. Imaginem um zagueiro titular da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Imaginem um zagueiro que era um dos mais temidos cobradores de pênalti do país. Imaginem João Batista Carlos Pinheiro."
Foi a última chance que tive de homenagear o herói tricolor em vida. Na noite desta terça-feira, Pinheiro sucumbiu na cruel luta contra o câncer.
Presente em praticamente qualquer Seleção Histórica do Fluminense, Pinheiro é um dos grandes ídolos tricolores de todos os tempos. Após a longa carreira como jogador, voltou às Laranjeiras para treinar os juniores e os profissionais. Foi campeão da Taça Guanabara de 1971 e da Taça Teresa Herrera de 1977. Como treinador, dirigiu o Cruzeiro na década de 90, conquistando a Copa do Brasil de 1993 e lançando o fenômeno Ronaldo nos profissionais.
Pinheiro, herói tricolor, descanse em paz. Sempre que o Fluminense entrar em campo, você estará com a gente. Isto é a vocação da eternidade".
(Paulo Cezar Filho, em 31 de agosto de 2011)
http://jornalheiros.blogspot.com/2011/08/pinheiro-eterno.html
Já após a saída de Píndaro, Castilho e Pinheiro continuaram levantando taças pelo Fluminense: foram campeões cariocas de 1959 e campeões do Torneio Rio-São Paulo em 1957 e 1960. Em 1954, ambos foram titulares da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, e só saíram derrotados pela lendária Hungria de Puskas e Kocsis. Por uma injustiça do destino, Pinheiro não foi convocado para os Mundiais de 1958 e 1962, e assim deixou de conquistar o único título que faltou em seu currículo. Azar da Copa do Mundo.
Ontem, infelizmente, faleceu Pinheiro. E adianto que bandeiras hasteadas a meio pau e minutos de silêncio não serão homenagens suficientes. Amigos, o Fluminense perdeu ontem um mito, um símbolo de sua história, um ícone de suas glórias, uma glória em si. Pinheiro é o segundo atleta com mais atuações com a camisa tricolor (600 partidas), perdendo nesse quesito apenas para seu companheiro Castilho.
Na ocasião de seu aniversário de 79 anos, em janeiro último, escrevi as seguintes linhas:
"Amigos, imaginem um zagueiro com 600 atuações por seu clube. Imaginem um zagueiro que, durante doze anos, foi titular absoluto deste clube. Imaginem um zagueiro titular da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Imaginem um zagueiro que era um dos mais temidos cobradores de pênalti do país. Imaginem João Batista Carlos Pinheiro."
Foi a última chance que tive de homenagear o herói tricolor em vida. Na noite desta terça-feira, Pinheiro sucumbiu na cruel luta contra o câncer.
Presente em praticamente qualquer Seleção Histórica do Fluminense, Pinheiro é um dos grandes ídolos tricolores de todos os tempos. Após a longa carreira como jogador, voltou às Laranjeiras para treinar os juniores e os profissionais. Foi campeão da Taça Guanabara de 1971 e da Taça Teresa Herrera de 1977. Como treinador, dirigiu o Cruzeiro na década de 90, conquistando a Copa do Brasil de 1993 e lançando o fenômeno Ronaldo nos profissionais.
Pinheiro, herói tricolor, descanse em paz. Sempre que o Fluminense entrar em campo, você estará com a gente. Isto é a vocação da eternidade".
(Paulo Cezar Filho, em 31 de agosto de 2011)
http://jornalheiros.blogspot.com/2011/08/pinheiro-eterno.html
terça-feira, 29 de março de 2011
Frases do Romerito
"O Fluminense é algo muito grande. A torcida é fanática, a melhor que eu conheci. E o clube é como uma família."
"Amo este clube e a torcida. É até difícil de falar, pois é como se eu falasse da minha família."
"Este clube é a maior satisfação da minha vida. Foi o único clube brasileiro que joguei e por isso meu coração é tricolor."
“O Fluminense representa tudo de bom que aconteceu comigo no futebol, aprendi a respeitar o clube e amar a torcida sob todos os aspectos. Onde ando sempre procuro falar sobre o Fluminense e me informar de tudo sobre o clube. Poderia até dizer que sou cinqüenta por cento paraguaio e cinqüenta por cento Fluminense. Aprendi a amar este clube e sua torcida ao longo da história da minha carreira. Me emociono ao lembrar do título e do gol que marquei na decisão contra o Vasco. O gol mais importante da minha passagem pelo Fluminense. Torno a repetir, amo este clube e sua torcida."
"É um sonho vê-lo com a camisa do Flu. Quero levá-lo em Xerém no fim do ano para fazer um teste. Seria mais uma realização da minha vida, pois o Fluminense é o clube que mais amo, o clube do meu coração. É como se eu fosse filho do clube." (Em 2005, sobre a possibilidade de seu filho jogar pelo Flu.)
Errata: A frase foi dita em 2006.
"Minha maior alegria é ter jogado no Fluminense, o maior clube que eu conheci."
Fontes: www.globoesporte.com, jornal Lance! e livro Fluminense Football Club - História, Conquistas e Glórias no Futebol.
"Amo este clube e a torcida. É até difícil de falar, pois é como se eu falasse da minha família."
"Este clube é a maior satisfação da minha vida. Foi o único clube brasileiro que joguei e por isso meu coração é tricolor."
“O Fluminense representa tudo de bom que aconteceu comigo no futebol, aprendi a respeitar o clube e amar a torcida sob todos os aspectos. Onde ando sempre procuro falar sobre o Fluminense e me informar de tudo sobre o clube. Poderia até dizer que sou cinqüenta por cento paraguaio e cinqüenta por cento Fluminense. Aprendi a amar este clube e sua torcida ao longo da história da minha carreira. Me emociono ao lembrar do título e do gol que marquei na decisão contra o Vasco. O gol mais importante da minha passagem pelo Fluminense. Torno a repetir, amo este clube e sua torcida."
"É um sonho vê-lo com a camisa do Flu. Quero levá-lo em Xerém no fim do ano para fazer um teste. Seria mais uma realização da minha vida, pois o Fluminense é o clube que mais amo, o clube do meu coração. É como se eu fosse filho do clube." (Em 2005, sobre a possibilidade de seu filho jogar pelo Flu.)
Errata: A frase foi dita em 2006.
"Minha maior alegria é ter jogado no Fluminense, o maior clube que eu conheci."
Fontes: www.globoesporte.com, jornal Lance! e livro Fluminense Football Club - História, Conquistas e Glórias no Futebol.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Chega de humildade
"Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.
Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: — “Aquele Fla-Flu!”. Ah, quem não esteve ontem no Estádio Mário Filho não viveu. E o Fluminense fez uma exibição perfeita, irretocável. Lutou com a alma indomável do campeão. Ninguém conquista o título num único dia, numa única tarde. Não. Um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro.
Acreditem: — o Fluminense começou a ser campeão muito antes. Sim, quando saiu do caos para a liderança. “Do caos para a liderança”, repito, foi a nossa viagem maravilhosa. Lembro-me do primeiro domingo em que ficamos sozinhos na ponta. As esquinas e os botecos faziam a piada cruel: — “Líder por uma semana”. Daí para a frente, o Fluminense era sempre o líder por uma semana.
Olhem para trás. Da rodada inaugural até ontem, não houve time mais regular, mais constante, de uma batida mais harmoniosa. Mas foi engraçado: — por muito tempo, ninguém acreditou no Fluminense, ninguém. Um dia, Flávio veio de São Paulo. Era o ponta-de-lança mais esperado que um Moisés. Queríamos um goleador. E nunca mais se interrompeu a ascensão para o título.
O curioso é que, há muito tempo, aqui mesmo desta coluna, fez-se o vaticínio de que o campeonato teria a sua decisão num Fla-Flu. Foram autores de tal profecia, primeiro, o Celso Bulhões da Fonseca; em seguida, o Carlinhos Niemeyer, um e outro rubro-negros. O que ambos não sabiam é que já estava escrito há 6 mil anos que o campeão seria o Fluminense. E vou citar um outro oráculo: o Haroldo Barbosa. Quando o tricolor parecia uma piada, o bom Haroldo piscou o olho para o Marcello Soares de Moura: — “Este é o ano do Fluminense!”. E do seu olhar vazava luz.
E mais: — na sexta-feira, o presidente do Fluminense, Francisco Lapport, convidou para um almoço, em sua residência, a mim, ao Marcello Soares de Moura e ao Carlinhos Nasser. Ainda na mesa, e antes do cafezinho, baixou-nos o sentimento profético do título. Amigos, o que se viu ontem no Estádio Mário Filho foi espantoso. Primeiro, a tempestade de bandeiras, de pó-de-arroz, os pombos tricolores e rubro-negros.
E que formidável partida! Houve, durante noventa minutos, um suspense mortal. O Fluminense fez o primeiro gol e o Flamengo empatou. O Fluminense fez o segundo e o Flamengo mais uma vez empata. Duzentas mil pessoas atônitas morriam nas arquibancadas, gerais e cadeiras. E foi preciso que Flávio, o goleador do Fluminense, o goleador do campeonato, marcasse aquele que seria o gol da vitória, da doce e santa vitória. E o rubro-negro não empatou mais, nunca mais. Era a vitória, era o título.
Agora a pergunta: — e o personagem da semana? Podia ser Cláudio, que fez uma exibição magistral e, inclusive, um gol. Podia ser Denílson, que volta a ser o “Rei Zulu” e um dos maiores jogadores brasileiros de defesa. Penso também em Galhardo, que, a princípio nervosíssimo, teve intervenções sensacionais. Podia ser também Telê, que, sóbrio, modesto, trouxe a equipe do caos para o título. Mas entendo que desta vez o personagem deve ser o time. Do goleiro ao ponta-esquerda. Todos, todos mostraram uma alma, uma paixão, um ímpeto inexcedíveis.
Pelo amor de Deus, não me venham dizer que, no segundo tempo, o Flamengo jogou com dez. O rubro-negro cresceu com a desvantagem numérica, lançou-se todo para a frente. Eram dez fanáticos dispostos a vencer ou perecer. O Flamengo teve ontem um dos grandes momentos de sua história.
Mas, dizia eu no começo que a nossa humildade pára aqui. Passamos toda a jornada com um passarinho em cada ombro e as duras e feias sandálias nos pés. Mas o Fluminense é o campeão. Erguendo-me das cinzas da humildade, anuncio: — “Vamos tratar do bi”."
(Nelson Rodrigues, O Globo, 16/06/1969)
Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: — “Aquele Fla-Flu!”. Ah, quem não esteve ontem no Estádio Mário Filho não viveu. E o Fluminense fez uma exibição perfeita, irretocável. Lutou com a alma indomável do campeão. Ninguém conquista o título num único dia, numa única tarde. Não. Um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro.
Acreditem: — o Fluminense começou a ser campeão muito antes. Sim, quando saiu do caos para a liderança. “Do caos para a liderança”, repito, foi a nossa viagem maravilhosa. Lembro-me do primeiro domingo em que ficamos sozinhos na ponta. As esquinas e os botecos faziam a piada cruel: — “Líder por uma semana”. Daí para a frente, o Fluminense era sempre o líder por uma semana.
Olhem para trás. Da rodada inaugural até ontem, não houve time mais regular, mais constante, de uma batida mais harmoniosa. Mas foi engraçado: — por muito tempo, ninguém acreditou no Fluminense, ninguém. Um dia, Flávio veio de São Paulo. Era o ponta-de-lança mais esperado que um Moisés. Queríamos um goleador. E nunca mais se interrompeu a ascensão para o título.
O curioso é que, há muito tempo, aqui mesmo desta coluna, fez-se o vaticínio de que o campeonato teria a sua decisão num Fla-Flu. Foram autores de tal profecia, primeiro, o Celso Bulhões da Fonseca; em seguida, o Carlinhos Niemeyer, um e outro rubro-negros. O que ambos não sabiam é que já estava escrito há 6 mil anos que o campeão seria o Fluminense. E vou citar um outro oráculo: o Haroldo Barbosa. Quando o tricolor parecia uma piada, o bom Haroldo piscou o olho para o Marcello Soares de Moura: — “Este é o ano do Fluminense!”. E do seu olhar vazava luz.
E mais: — na sexta-feira, o presidente do Fluminense, Francisco Lapport, convidou para um almoço, em sua residência, a mim, ao Marcello Soares de Moura e ao Carlinhos Nasser. Ainda na mesa, e antes do cafezinho, baixou-nos o sentimento profético do título. Amigos, o que se viu ontem no Estádio Mário Filho foi espantoso. Primeiro, a tempestade de bandeiras, de pó-de-arroz, os pombos tricolores e rubro-negros.
E que formidável partida! Houve, durante noventa minutos, um suspense mortal. O Fluminense fez o primeiro gol e o Flamengo empatou. O Fluminense fez o segundo e o Flamengo mais uma vez empata. Duzentas mil pessoas atônitas morriam nas arquibancadas, gerais e cadeiras. E foi preciso que Flávio, o goleador do Fluminense, o goleador do campeonato, marcasse aquele que seria o gol da vitória, da doce e santa vitória. E o rubro-negro não empatou mais, nunca mais. Era a vitória, era o título.
Agora a pergunta: — e o personagem da semana? Podia ser Cláudio, que fez uma exibição magistral e, inclusive, um gol. Podia ser Denílson, que volta a ser o “Rei Zulu” e um dos maiores jogadores brasileiros de defesa. Penso também em Galhardo, que, a princípio nervosíssimo, teve intervenções sensacionais. Podia ser também Telê, que, sóbrio, modesto, trouxe a equipe do caos para o título. Mas entendo que desta vez o personagem deve ser o time. Do goleiro ao ponta-esquerda. Todos, todos mostraram uma alma, uma paixão, um ímpeto inexcedíveis.
Pelo amor de Deus, não me venham dizer que, no segundo tempo, o Flamengo jogou com dez. O rubro-negro cresceu com a desvantagem numérica, lançou-se todo para a frente. Eram dez fanáticos dispostos a vencer ou perecer. O Flamengo teve ontem um dos grandes momentos de sua história.
Mas, dizia eu no começo que a nossa humildade pára aqui. Passamos toda a jornada com um passarinho em cada ombro e as duras e feias sandálias nos pés. Mas o Fluminense é o campeão. Erguendo-me das cinzas da humildade, anuncio: — “Vamos tratar do bi”."
(Nelson Rodrigues, O Globo, 16/06/1969)
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
O imenso 1 a 0
"Essa é a história de uma mãe e seus dois filhos – e começa numa das mais tristes noites da história do Fluminense Football Club. O tricolor das Laranjeiras já foi muitas coisas – já foi timinho, já foi leiteria, já foi sobrenatural. Mas naquela noite colorida de 2 para 3 de julho de 2008, quando baixou a névoa de pó-de-arroz sobre o Maracanã, parecia que o Fluminense tinha perdido a chance de ser maior.
Nossa história começa logo após o fim daquela partida – na qual o Fluminense venceu a LDU por 3 a 1. O resultado levou a decisão da Taça Libertadores para os pênaltis. Neste breve e infinito intervalo – entre jogo e penais – é que encontramos dois torcedores nas cadeiras especiais – uma mãe e um de seus filhos. A tensão é praticamente palpável. A mãe olha para o filho, o pequeno Caio, sete anos, e transforma angustia em otimismo:
- Meu filho, agora somos campeões! Nos pênaltis, a gente é time grande, vamos ganhar! – grita.
O Fluminense perde o primeiro pênalti… depois o segundo. Conca e Thiago Neves. A mãe olha para o filho…
- Mas você disse que a gente ia ganhar, mãe…
As lágrimas brotam nos olhos – mas o choro fica preso na garganta. Não sai. Engasga. Washington perde o pênalti decisivo. Nas palavras da mãe:
- O estádio fica em silêncio, os olhos de meu filho cheios, meu coração destruído.
A LDU ainda comemora no gramado quando mãe e filho sobem a escadaria das especiais para chegar aos elevadores. O choro materno não desce. De repente, um outro jovem torcedor – com olhos cheios – começa a cantar o hino do clube.
- … fascina pela sua disciplina, o Fluminense me domina…
É cortado por uma outra voz, revoltada:
- Perdemos, seu idiota. Tá cantando por que?
O cantor ignora e continua cantando. A mãe percebe que seu filho também canta , baixinho. Aos poucos, o hino cresce – ganha corpo – toma o saguão inteiro – como um réquiem de Mozart para aquela finada campanha. Mãe, filho e milhares outros cantam em coro.
- … eu tenho amor ao tricolor! Salve o querido pavilhão… das três cores que traduzem tradição…
A canção na derrota é o depoimento supremo de amor pelo time – o perdão diante do insucesso, a afirmação que torcemos por aquelas cores de qualquer jeito – e que toda circunstância é secundária. Mãe e filho deixaram o Maracanã tristes, mas de alguma forma mais tricolores, mais profundamente tricolores.
Debaixo da angustia materna, o subtexto. Caio tem um irmão gêmeo, Marco. Se Caio torce pelo time da mãe, o Flu; Marco torce pelo time do pai, o Fla. São gêmeos não-idênticos, apenas muito parecidos. Ali no Maracanã, com a névoa branca baixando, a mãe surdamente temia… temia perder Caio. Temia ver Caio escapar na direção de outras cores.
Ano e meio depois, no fim de 2009, Fla e Flu estavam em pontos opostos da tabela do Brasileirao. O Fla precisava de uma vitória no Maracanã para ser campeão. O Flu precisava de um empate contra o Coritiba para escapar do rebaixamento.
Na casa de Caio e Marco havia duas TVs ligadas. Uma acompanhava Flamengo x Grêmio. A outra estava ligada em Fluminense x Coritiba. O primeiro jogo acabou antes – com o Fla campeão – e Marco veio gritar, celebrar, cantar seu título na sala com mãe e irmão. Encontrou silêncio e angústia. Faltavam dez minutos para o Flu se livrar do rebaixamento.
Marco silenciou também – e calado acompanhou o alívio tricolor. A última noite futebolística de 2009 terminou feliz na casa dos gêmeos. Quão irônico, o destino – capaz de tirar o futebol do Fla de dentro do Flu em 1912… para quase cem anos depois produzir dois irmãos tão próximos – um tricolor e um rubro-negro, debaixo do mesmo teto, felizes de modo distinto. Que roteiro Nelson Rodrigues, que dizia que Fla e Flu eram os Irmãos Karamazov do futebol brasileiro, não escreveria?
E então chegamos a dezembro de 2010 – quando o Fluminense encontra de novo sua história. Nós, que nada sabemos, deveríamos vez por outra presumir. Presumir que o primeiro titulo de um estádio chamado João Havelange seria tricolor. Presumir que este titulo viria pelo placar eternamente tricolor – o 1 a 0, o gigantesco, inesquecível 1 a 0 – o 1 a 0 jogando mal, o 1 a 0 furando a bola, o 1 a 0 feio, abjeto, lindo.
Quem diria, um ano antes, que o Flu suando e desesperado diante do Coritiba, resistindo a toneladas de tensão, estaria ali, a um passo da vitória – a um passo de um título? Um passo – um chute – um gol.
Movido a mala, o frágil Guarani parecia uma muralha verde, com duzentas pernas e sangue frio. Melhor campanha, melhor time, adversário desfalcado e rebaixado – nenhuma informação seria capaz de tranqüilizar o torcedor que passou a semana suando em três cores. Não, não havia facilidade capaz de remover a sina tricolor. As grandes vitórias do Fluminense são sempre mínimas, irrisórias.
E quis o destino, com suas mãos seletivas, que o gol viesse num lance em que a mala jogou contra o Guarani. Lembremos. O gol começa num chutão pra frente de um zagueiro do time campineiro. O único atacante do Bugre, Reinaldo, disputa no alto e perde para Leandro Eusébio. Enquanto a bola viaja, Apodi, o lateral velocista, dispara com vontade inaudita, esperando um raspar de bola, uma sobra. Não. Ela fica com o Fluminense. E cai com Carlinhos na esquerda, nas costas do despencado Apodi. O zagueiro Aislan sai na cobertura – e também com afobada dedicação, se joga aos pés do lateral. Carlinhos, esperto, evita o combate e cruza. No primeiro pau, Washington com apenas um marcador (o alto Aislan estava fora da área), raspa… e Emerson escreve história.
Emerson, do Fla para o Flu, o único bicampeão desses anos cariocas de Brasileirão. Emerson, o Sheik, que passou o campeonato enfrentando contusões. Emerson, com nome de pensador americano e sorriso de malandro carioca, chuta – a bola passa entre as pernas de… Emerson, o semi-anônimo goleiro do Bugre. E o 1 a 0 tricolor está pronto.
É um 1 a 0 Muricy, um 1 a 0 Conca – um 1 a 0 tricolor de cima a baixo, cabo a rabo. Um 1 a 0 que tira as metáforas rodrigueanas da cartola – a vocação da eternidade, os 40 minutos antes do nada. O Fluminense chutou o quase pro fundo da rede – e de modo extremamente tricolor. Como em 1984 – foi 1 a 0. Como em 2007, foi 1 a 0. Como em 1983, foi 1 a 0. O um a zero maior – como não percebemos antes? Ora direis… houve o 3 a 2, o 2 a 1 – sim – mas nada é tão fluminense como o 1 a 0. Um, zero – quase um código binariamente tricolor – o placar minimalista por excelência.
Na arquibancada do Engenhão, com o gol, a mãe de Caio chora de novo. Chora dois anos depois da Libertadores, um ano depois da arrancada anti-queda – um choro amplo, que não termina. Chora e abraça o filho. E continua a chorar. Os minutos restantes são proverbiais, o Guarani não ameaça, a tensão vai se diluindo. Quando o jogo acaba, mãe e filho começam a descer as rampas do Engenhão. Não é o hino que eles cantam – é Radio Pirata, ou quase.
- ÔÔÔÔÔÔÔ… vamos pra cima Flusão…
As bandeiras se misturam – 40 mil pessoas, uma voz apenas. O Fluminense é campeão brasileiro.
- …Quero gritar campeão… Vamos lutar… por mais essa taça…
A mãe olha para o filho cantando… se lembra da frase de dois anos antes.
- Mãe, você disse que a gente ia ganhar, mãe….
Ao lado de Caio está Marco, rubro-negro, vestindo a camisa do Fluminense, torcendo pelo Fluminense – com a bandeira do Fluminense. Quis ir ao jogo com o irmão. A torcedora-mãe olha para os gêmeos bicampeões – como Fla e Flu – e se lembra do choro anterior. Ela enxuga as lágrimas do presente – que nublam na retina as imagens que a memória há de guardar. Um filho gira a camisa e canta, o outro empunha sua bandeira casual. O futebol, que tanto nos dribla e derruba, às vezes traz instantes eternos como esse. Silenciosamente, ela torce por uma tardia conversão de Marco – mas isso importa menos. O que importa é estar ali – cantando. Cantando. E cantando."
(Gustavo Poli)
Nossa história começa logo após o fim daquela partida – na qual o Fluminense venceu a LDU por 3 a 1. O resultado levou a decisão da Taça Libertadores para os pênaltis. Neste breve e infinito intervalo – entre jogo e penais – é que encontramos dois torcedores nas cadeiras especiais – uma mãe e um de seus filhos. A tensão é praticamente palpável. A mãe olha para o filho, o pequeno Caio, sete anos, e transforma angustia em otimismo:
- Meu filho, agora somos campeões! Nos pênaltis, a gente é time grande, vamos ganhar! – grita.
O Fluminense perde o primeiro pênalti… depois o segundo. Conca e Thiago Neves. A mãe olha para o filho…
- Mas você disse que a gente ia ganhar, mãe…
As lágrimas brotam nos olhos – mas o choro fica preso na garganta. Não sai. Engasga. Washington perde o pênalti decisivo. Nas palavras da mãe:
- O estádio fica em silêncio, os olhos de meu filho cheios, meu coração destruído.
A LDU ainda comemora no gramado quando mãe e filho sobem a escadaria das especiais para chegar aos elevadores. O choro materno não desce. De repente, um outro jovem torcedor – com olhos cheios – começa a cantar o hino do clube.
- … fascina pela sua disciplina, o Fluminense me domina…
É cortado por uma outra voz, revoltada:
- Perdemos, seu idiota. Tá cantando por que?
O cantor ignora e continua cantando. A mãe percebe que seu filho também canta , baixinho. Aos poucos, o hino cresce – ganha corpo – toma o saguão inteiro – como um réquiem de Mozart para aquela finada campanha. Mãe, filho e milhares outros cantam em coro.
- … eu tenho amor ao tricolor! Salve o querido pavilhão… das três cores que traduzem tradição…
A canção na derrota é o depoimento supremo de amor pelo time – o perdão diante do insucesso, a afirmação que torcemos por aquelas cores de qualquer jeito – e que toda circunstância é secundária. Mãe e filho deixaram o Maracanã tristes, mas de alguma forma mais tricolores, mais profundamente tricolores.
Debaixo da angustia materna, o subtexto. Caio tem um irmão gêmeo, Marco. Se Caio torce pelo time da mãe, o Flu; Marco torce pelo time do pai, o Fla. São gêmeos não-idênticos, apenas muito parecidos. Ali no Maracanã, com a névoa branca baixando, a mãe surdamente temia… temia perder Caio. Temia ver Caio escapar na direção de outras cores.
Ano e meio depois, no fim de 2009, Fla e Flu estavam em pontos opostos da tabela do Brasileirao. O Fla precisava de uma vitória no Maracanã para ser campeão. O Flu precisava de um empate contra o Coritiba para escapar do rebaixamento.
Na casa de Caio e Marco havia duas TVs ligadas. Uma acompanhava Flamengo x Grêmio. A outra estava ligada em Fluminense x Coritiba. O primeiro jogo acabou antes – com o Fla campeão – e Marco veio gritar, celebrar, cantar seu título na sala com mãe e irmão. Encontrou silêncio e angústia. Faltavam dez minutos para o Flu se livrar do rebaixamento.
Marco silenciou também – e calado acompanhou o alívio tricolor. A última noite futebolística de 2009 terminou feliz na casa dos gêmeos. Quão irônico, o destino – capaz de tirar o futebol do Fla de dentro do Flu em 1912… para quase cem anos depois produzir dois irmãos tão próximos – um tricolor e um rubro-negro, debaixo do mesmo teto, felizes de modo distinto. Que roteiro Nelson Rodrigues, que dizia que Fla e Flu eram os Irmãos Karamazov do futebol brasileiro, não escreveria?
E então chegamos a dezembro de 2010 – quando o Fluminense encontra de novo sua história. Nós, que nada sabemos, deveríamos vez por outra presumir. Presumir que o primeiro titulo de um estádio chamado João Havelange seria tricolor. Presumir que este titulo viria pelo placar eternamente tricolor – o 1 a 0, o gigantesco, inesquecível 1 a 0 – o 1 a 0 jogando mal, o 1 a 0 furando a bola, o 1 a 0 feio, abjeto, lindo.
Quem diria, um ano antes, que o Flu suando e desesperado diante do Coritiba, resistindo a toneladas de tensão, estaria ali, a um passo da vitória – a um passo de um título? Um passo – um chute – um gol.
Movido a mala, o frágil Guarani parecia uma muralha verde, com duzentas pernas e sangue frio. Melhor campanha, melhor time, adversário desfalcado e rebaixado – nenhuma informação seria capaz de tranqüilizar o torcedor que passou a semana suando em três cores. Não, não havia facilidade capaz de remover a sina tricolor. As grandes vitórias do Fluminense são sempre mínimas, irrisórias.
E quis o destino, com suas mãos seletivas, que o gol viesse num lance em que a mala jogou contra o Guarani. Lembremos. O gol começa num chutão pra frente de um zagueiro do time campineiro. O único atacante do Bugre, Reinaldo, disputa no alto e perde para Leandro Eusébio. Enquanto a bola viaja, Apodi, o lateral velocista, dispara com vontade inaudita, esperando um raspar de bola, uma sobra. Não. Ela fica com o Fluminense. E cai com Carlinhos na esquerda, nas costas do despencado Apodi. O zagueiro Aislan sai na cobertura – e também com afobada dedicação, se joga aos pés do lateral. Carlinhos, esperto, evita o combate e cruza. No primeiro pau, Washington com apenas um marcador (o alto Aislan estava fora da área), raspa… e Emerson escreve história.
Emerson, do Fla para o Flu, o único bicampeão desses anos cariocas de Brasileirão. Emerson, o Sheik, que passou o campeonato enfrentando contusões. Emerson, com nome de pensador americano e sorriso de malandro carioca, chuta – a bola passa entre as pernas de… Emerson, o semi-anônimo goleiro do Bugre. E o 1 a 0 tricolor está pronto.
É um 1 a 0 Muricy, um 1 a 0 Conca – um 1 a 0 tricolor de cima a baixo, cabo a rabo. Um 1 a 0 que tira as metáforas rodrigueanas da cartola – a vocação da eternidade, os 40 minutos antes do nada. O Fluminense chutou o quase pro fundo da rede – e de modo extremamente tricolor. Como em 1984 – foi 1 a 0. Como em 2007, foi 1 a 0. Como em 1983, foi 1 a 0. O um a zero maior – como não percebemos antes? Ora direis… houve o 3 a 2, o 2 a 1 – sim – mas nada é tão fluminense como o 1 a 0. Um, zero – quase um código binariamente tricolor – o placar minimalista por excelência.
Na arquibancada do Engenhão, com o gol, a mãe de Caio chora de novo. Chora dois anos depois da Libertadores, um ano depois da arrancada anti-queda – um choro amplo, que não termina. Chora e abraça o filho. E continua a chorar. Os minutos restantes são proverbiais, o Guarani não ameaça, a tensão vai se diluindo. Quando o jogo acaba, mãe e filho começam a descer as rampas do Engenhão. Não é o hino que eles cantam – é Radio Pirata, ou quase.
- ÔÔÔÔÔÔÔ… vamos pra cima Flusão…
As bandeiras se misturam – 40 mil pessoas, uma voz apenas. O Fluminense é campeão brasileiro.
- …Quero gritar campeão… Vamos lutar… por mais essa taça…
A mãe olha para o filho cantando… se lembra da frase de dois anos antes.
- Mãe, você disse que a gente ia ganhar, mãe….
Ao lado de Caio está Marco, rubro-negro, vestindo a camisa do Fluminense, torcendo pelo Fluminense – com a bandeira do Fluminense. Quis ir ao jogo com o irmão. A torcedora-mãe olha para os gêmeos bicampeões – como Fla e Flu – e se lembra do choro anterior. Ela enxuga as lágrimas do presente – que nublam na retina as imagens que a memória há de guardar. Um filho gira a camisa e canta, o outro empunha sua bandeira casual. O futebol, que tanto nos dribla e derruba, às vezes traz instantes eternos como esse. Silenciosamente, ela torce por uma tardia conversão de Marco – mas isso importa menos. O que importa é estar ali – cantando. Cantando. E cantando."
(Gustavo Poli)
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Do grená, nosso amor
Há mais de um século nosso amor se faz presente
Antes mesmo de nascermos ele já nos esperava.
Nossa fé em cada vitória, nossas glórias na memória
Faz tanto tempo que essa história é contada.
Ele está nas minhas rimas, nos meus sonhos
No meu desejo mais profundo de lutar por um ideal.
Ele move e gira um mundo, vai além de todos e tudo
Ultrapassa nossos sonho e se torna real.
Não um clube apenas, não uma bola, uma arena
Quem tem esse amor sabe que vai muito além...
São os gritos, a revolta, o apoio
A certeza de que ele pode contar com alguém.
É esse alguém que somos, e somos por ele.
A certeza de que estaremos sempre juntos,
Na alegria ou nas dores.
Amor: Uma palavra, duas sílabas,
Quatro letras e três cores.
(Mariana Stofel)
Postado no blog: http://marianastofel.blogspot.com
Antes mesmo de nascermos ele já nos esperava.
Nossa fé em cada vitória, nossas glórias na memória
Faz tanto tempo que essa história é contada.
Ele está nas minhas rimas, nos meus sonhos
No meu desejo mais profundo de lutar por um ideal.
Ele move e gira um mundo, vai além de todos e tudo
Ultrapassa nossos sonho e se torna real.
Não um clube apenas, não uma bola, uma arena
Quem tem esse amor sabe que vai muito além...
São os gritos, a revolta, o apoio
A certeza de que ele pode contar com alguém.
É esse alguém que somos, e somos por ele.
A certeza de que estaremos sempre juntos,
Na alegria ou nas dores.
Amor: Uma palavra, duas sílabas,
Quatro letras e três cores.
(Mariana Stofel)
Postado no blog: http://marianastofel.blogspot.com
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